quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Riscando mapas



Eu costumo deixar o GPS do meu celular ativado a todo momento. Eu faço isso porque uma vez eu vi uma reportagem de um jovem que foi preso injustamente e tentou utilizar o caminho registrado no Google Maps para provar seu álibi, e eu morro de medo de ser confundido com outra pessoa e ser preso injustamente. Eu também tenho medo de desaparecer e ninguém me encontrar. Pelo menos, com os registros do meu GPS ativados, eu posso deixar algum tipo de rastro para as outras pessoas. 

Por muito tempo eu recusei utilizar qualquer tipo de serviço de localização no meu celular, eu tinha muito medo de ser rastreado por alguém que invadisse as minhas contas e ficasse me observando por todos os lugares que passo, mas hoje o medo de perder meu celular é maior do que essa paranoia de perseguição, então eu deixo todos os serviços de localização e rastreio ativados. O Google sabe onde eu estou a todo momento, ou melhor, onde o meu celular está a todo momento. 

Eu permito (e quero) que uma empresa bilionária me rastreie a todo momento utilizando uma tecnologia de guerra do governo estadunidense, mas, pelo menos, em troca disso eu tenho um desenho muito esquisito de todos os locais que percorri durante o dia. 
 

 

Quando comecei minhas tentativas de desenhar em mapas utilizando GPS drawing, percebi que minha falta de habilidade de desenho utilizando as mãos também se refletia no uso do meu corpo inteiro para desenhar. Eu também devo ser justo comigo mesmo e lembrar que até mesmo a precisão do rastreio do Strava não foi das melhores no meu celular, então até mesmo fazer uma linha reta era um pouco mais complicado do que o normal (apesar de eu dificilmente conseguir andar numa linha reta perfeita). 

Enquanto desenhava, comecei a perceber minha maneira de interagir com aquele espaço de maneira diferente. Um indivíduo andando estranhamente em círculos na faixa de areia de uma praia poderia ser o processo de criação de uma bela espiral (a beleza está nos olhos de quem vê), que batizei como “O Furacão”.
 

 
 
Ir e voltar de um lado para o outro poderia ser o movimento de criação da “Lotus Elipsoidal”. 
 

 
 
Mas fazer esses desenhos me fez desbloquear uma nova percepção dos espaços públicos, onde os caminhos traçados ganham novos significados e não ficam presos à simples ideia de que ao nos locomover pelo espaço, estamos apenas nos deslocando do ponto A ao ponto B. 

Texto: Matheus Emanuel Moreira de Araújo

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